Convocadas para seleção destacam oportunidades no Atleta Cidadão
Atualizado em 18/01/2018 - 10:02
Futebol Feminino do Programa Atleta Cidadão  15 01 2018
Vitória Bruna da Silva Reis (zagueira) e Maria Eduarda Batista de Queiroz, a Duda (volante), são atletas do Programa Atleta Cidadão da Prefeitura de São José, e foram convocadas para integrar a seleção feminina de futebol. - Foto: Charles de Moura/PMSJC

Thiago Fadini
Secretaria de Esporte e Qualidade de Vida

Em plena férias de janeiro, o tão esperado descanso foi interrompido por uma notícia para três atletas do elenco sub-17 de futebol feminino do programa Atleta Cidadão, mantido pela Prefeitura de São José dos Campos. Isabela Ferreira Costa das Chagas (lateral), Vitória Bruna da Silva Reis (zagueira) e Maria Eduarda Batista de Queiroz, a Duda (volante), foram convocadas para integrar a seleção brasileira da categoria. Com isso, esse o time comandado pelo técnico Odilon Marques está suando a camisa desde a segunda semana do ano.

O chamado de CBF (Confederação Brasileira de Futebol) veio no último dia 9, quando a comissão técnica do Programa Atleta Cidadão recebeu um e-mail com a convocação do trio.

Elas vão viajar na próxima segunda-feira (22) para o Rio de Janeiro e se juntar às outras 12 jogadoras para um período de treinos monitorados por Luiz Antônio Ribeiro, o Luizão. O treinamento, que visa a disputa do Sul-Americano da Argentina, em março, será realizado na Granja Comary, em Teresópolis, até 10 de fevereiro.

Em entrevista, Vitória e Duda falaram sobre a expectativa quanto ao torneio, que garantirá duas seleções no Mundial do Uruguai, previsto para acontecer em novembro. Isabela está passando o recesso com a família na cidade fluminense de Resende. 

“A gente vem escutando muito da comissão de lá (seleção brasileira) que os times são muito fortes tática e fisicamente. Acho que vai ser bem difícil, mas o objetivo é classificar para o mundial”, disse Vitória.

“Nós temos sempre que treinar mais e é o que a gente está fazendo nesse período. Não vai ser fácil”, reforçou Duda.

E a rotina de treinos das meninas é rígida. Embora estejam distantes do Centro de Treinamento do Brasil, as atletas se dedicam ao físico de segunda-feira a sábado, por pelo menos duas horas. Nesses momentos, a tecnologia é uma aliada, já que todas as convocadas têm que enviar vídeos dos treinos todos os dias para a comissão dirigida por Luizão.

“Não tem como fugir. São duas horas por dia. Segunda, quarta e sexta na academia, e terça, quinta e sábado é resistência”, afirmou a volante.

O sucesso e empenho das meninas joseenses é gratificante para o treinador Odilon Marques, que durante o ano liderou o time sub-17 ao vice-campeonato da primeira edição do Paulista, na campanha da Taça Cidade de São Paulo e da Copa Joseense – esta última disputada com equipes masculinas de São José dos Campos e outros municípios do Vale do Paraíba.

“Quando a gente olha e vê o nome delas, meninas que são dedicadas, você fala ‘fizeram por merecer’. É um orgulho muito grande pra gente, um reconhecimento do trabalho, para nós e para elas. É uma confirmação”, falou Odilon.

Valores

A disciplina, aplicada pelas meninas no período que antecede os treinamentos com a seleção, é um dos valores primordiais para que elas e qualquer outro atleta de qualquer uma das 23 modalidades atendidas pelo Atleta Cidadão continuem no programa. É necessário conciliar a prática desportiva e os estudos, alcançando boas notas na escola. A verificação é feita regularmente pelas coordenações das modalidades.

O treinador Odilon Marques afirmou que “briga, no bom sentindo, com relação à alimentação e com o descanso”, mas também enalteceu a responsabilidade das garotas. Ele, que está há um ano no futebol feminino, passou outros quatro anos e meio dirigindo equipes masculinas do programa da Prefeitura.

“Acho que elas têm mais essa consciência (da importância do estudo). No masculino, até uma certa idade, a qualquer momento eles acham que vão virar um atleta profissional, e não é assim”, explicou.

A zagueira Vitória está num momento considerado crucial na vida de qualquer estudante. Chegando ao fim do 3º ano do ensino médio, ela dá a dica para que os atletas que estão em situação de pré-vestibular, assim como ela, não percam o controle.

“Você estudando todos os dias um pouquinho, não tem erro. Você tem que vir, treinar da melhor forma possível, voltar para casa e estudar. Não é igual ao pessoal que passa o dia inteiro estudando, mas acho que também não precisa disso. É uma pressão às vezes até desnecessária”, opinou Vitória.

Já Duda, que tem o sonho de viver fora do país é ainda mais taxativa sobre a importância de uma carreira fora do esporte. “Eu quero ir pra fora, aqui não tem jeito ainda de viver só do futebol feminino. Não pode parar de estudar, senão não tem futuro”.

E os pais, um dos pilares primordiais para o sucesso de formação do programa, apoiam as decisões das filhas. “É o que sempre falo para ela: ‘Duda, o futebol vai acabar, tem carreira curta, então busque alguma coisa para que você possa ficar no meio. Fisioterapia, nutrição, educação física... Se você gosta, é esse estudo que vai fazer você ficar no meio do futebol’”, contou Ivan Queiroz, 38, pai da volante.

O pai da zagueira Vitória, Ricardo Reis, 50 anos, faz questão de lembrar a ela todos os dias da importância de manter os ‘pés no chão e ser humilde’, para não se deslumbrar com as convocações. “Ela é reconhecida e é legal a gente ver isso, mas a gente conversa muito para que isso não atrapalhe. Graças a Deus, é boa aluna, mas é (uma rotina) sacrificante”.

Visibilidade

Em 2018, as equipes de futebol feminino do Atleta Cidadão devem disputar novamente campeonatos de base de nível municipal e estadual. Entre os do calendário do ano passado, atletas, comissão técnica, e até os pais das meninas destacaram a Copa Joseense como grande oportunidade de desenvolvimento, tanto técnico como psicológico, por conta do ainda existente preconceito com as mulheres nos gramados.

“Não achei difícil, porque comecei a jogar com meninos. Então não achei nada demais. Lógico que são mais fortes e mais rápidos, mas foi um bom campeonato”, pontuou a volante Duda.

“É diferente jogar com eles. Tem toda a questão dos pais deles, do preconceito. Acho que essa sim é a parte difícil e não a questão de se jogar o futebol”, completou Vitória.

O torneio organizado pela Prefeitura de São José dos Campos promoveu em 2017 o confronto entre as garotas e meninos de diversas escolinhas da cidade, municipais e particulares. Elas entraram com os elencos sub-13, sub-15 e sub-17. Os quase 600 jogos tiveram grande participação nas arquibancadas, principalmente dos familiares dos atletas.

Odilon Marques, que levou as meninas do sub-17 à segunda fase da Copa Joseense, confirmou que a maior dificuldade foi o extracampo, mas destacou a ‘boa cabeça’ de suas atletas. “Teve lugares em que as próprias mães dos meninos estavam ofendendo as meninas. Elas não admitem eles perderem para as meninas. Aí vem o preconceito”, disse.

E na luta para que as meninas encontrem o merecido espaço no esporte e em qualquer esfera da sociedade, os pais têm um protagonismo essencial. “É um trabalho de equipe. Os pais fazem a parte deles, as meninas fazem, a coordenação do programa e a equipe técnica fazem tudo bem feito. Então o resultado é esse”, afirmou Ivan Queiroz.

Apoio ao talento

O programa Atleta Cidadão, mantido pela Prefeitura, foi criado em 1999 e é responsável pela formação de atletas das categorias de base de São José dos Campos. 

São atendidos alunos de 7 a 17 anos, com seletivas abertas ou em turmas de treinamento das atividades esportivas. Eles recebem apoios estrutural e desportivo para representar São José dos Campos em competições estaduais e nacionais.

As seletivas acontecem regularmente todos os anos, individualmente e nas edições da Caravana de Seletivas, que em 2017 pré-aprovou 362 candidatos para 14 das 23 modalidades atendidas pelo programa.


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