Perfil do Sanatório Vicentina Aranha
Conheça um pouco mais a história,
detalhes técnicos e detalhes sobre a arquitetura do
sanatório. Saiba também quem foi Vicentina
Aranha e a participação marcante de Ramos de
Azevedo no projeto.
Histórico
O
Vicentina Aranha foi o primeiro sanatório a ser construído
na cidade de São José dos Campos e um dos
primeiros do País. Devido à Santa Casa de Misericórdia
de São Paulo não poder mais comportar a quantidade
de doentes tuberculosos, além da necessidade de isolamento
que a doença requeria, sentiu-se a necessidade de
construir um Hospital.
Da inauguração (1924) até 1945,
o prédio sofreu várias reformas e ampliações,
recebendo capela, necrotério, casa interna do
médico, etc. O edifício foi elaborado pelo
arquiteto paulista F. P. Ramos de Azevedo e realizado pelo
engenheiro Augusto Toledo. Encontrava-se fora da cidade,
para isolamento e descanso. Era muito arborizado, com eucaliptos
e bambus, para proteger dos ventos frios.
Com as mudanças nos métodos de
tratamento da tuberculose e as possibilidades de cura, após
1945, passou a diminuir suas atividades. Passou, em 1990,
a abrigar um Hospital Geriátrico, por decisão
da Santa Casa, sendo sua função atualmente.
Abriga, também, uma Associação de Apoio
ao Fissurado Labial Palatal e o Centro de Atividades para
a Terceira Idade.
Em 28 de agosto de 1996 é preservado por
lei municipal n.º 4.928/96 através do COMPHAC,
sendo preservado os edifícios e toda a área
utilizada pelo sanatório (Setor de preservação).
Em 25 de julho de 2001, no Parque Municipal de São
José dos Campos “Roberto Burle Marx”,
foi assinado a resolução sc nº 44, tornando
o sanatório um bem tombado pelo CONDEPHAAT.
Ficha técnica
Autor
do Projeto - Francisco de Paula Ramos de Azevedo, arquiteto
e Arnaldo Vieira de Carvalho, engenheiro civil.
Ano de Construção: 1918
Ano da Inauguração: 1924
Quem foi Vicentina
de Queiros Aranha
Esposa
do Senador Olavo Egídio, sonhou com a assistência
aos tuberculosos. A tuberculose era uma das preocupações
entre as epidemias (varíola, tifo e febre amarela)
que exigia uma ação social efetiva. O contingente
de tuberculosos, naquele momento, era significativo e naturalmente
demandava os hospitais paulistanos, uma vez que a cidade
reunia, por seu porte, melhores condições para
o tratamento médico com profissionais habilitados
e instituições sedimentadas, entre as quais
se destacava a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia
de São Paulo.
Sua campanha prosseguiu, mesmo após sua
morte. O senador levou avante sua idéia. Com ele trabalhou
Paulo Setúbal, casado com Francisca, filha do Senador.
A necessidade de se edificar um hospital de isolamento para
os tuberculosos, além de ser coerente com a mentalidade
médica, naquela ocasião, tinha a seu favor
outro fator muito importante.
A participação
de Ramos de Azevedo
O renomado Engenheiro e Arquiteto
Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851 – 1928)
era, na época, chefe da Comissão de Obras
da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo
e responsável pela maioria das obras que atestavam
a intensa urbanização da capital paulista,
entre elas, vale citar o edifício do Tesouro Nacional
(1886- 1891), o Quartel de Polícia, na Luz (1888),
o Hospital Militar (1893), a Escola Politécnica(1894),
o Edifício do Liceu de Artes e Ofícios (1897-1900),
o Hospital Psiquiátrico do Juqueri (1898),
o Teatro Municipal de São Paulo (1903-1911) e a
Penitenciária do Estado, no Carandiru (1919). Assim
sendo, coube naturalmente, ao Escritório Técnico
Francisco de Paula Ramos de Azevedo & Cia projetar
mais esta obra, no caso o Sanatório Vicentina Aranha
que, devido ao caráter do tratamento e a fatalidade
que representava o contágio da tuberculose, deveria
ficar numa cidade próxima a São Paulo e que
oferecesse as condições necessárias
para sediar tal empreendimento.
Em março de 1914, a Irmandade da Santa
Casa de Misericórdia de São Paulo adquiriu
uma chácara em São José dos Campos,
através de donativo feito pela Câmara Municipal
de São Paulo, para a construção de um
Sanatório para tuberculosos. A escolha da cidade se
deu devido ao clima que era ideal para o tratamento da doença.
A autoria do projeto do Sanatório Vicentina
Aranha, creditada ao Escritório Ramos de Azevedo,
constitui-se em importante informação visto
que, até o presente momento, nenhuma referência
sobre ela foi encontrada nas publicações sobre
as obras de Francisco de Paula Ramos de Azevedo.
Sobre a grandiosidade
estrutural do sanatório
Reconhecido
como o mais completo e com o melhor arranjo espacial, expresso
na estrutura formal e o funcional do conjunto arquitetônico,
o Sanatório Vicentina Aranha, apontado como um dos
maiores da América Latina, configura-se como a obra
mais importante do período denominada fase sanatorial,
e que, além do padrão de serviço oferecido,
serviu como referência obrigatória para outras
edificações, no município, com finalidades
idênticas.
O Sanatório Vicentina Aranha está localizado
numa parte da cidade que foi denominada, a partir de 1932,
Zona Sanatorial, hoje, área de uso residencial de
alto valor imobiliário. Este complexo hospitalar está incrustado
em uma área verde de consideráveis proporções,
cercado por muros de alvenaria em toda a sua extensão.
A composição espacial apresenta
soluções projetuais que ratificam a importância
do Hospital para Alienados de Juqueri (1898), como referência
decisiva no contexto da obra do próprio Ramos de Azevedo.
Mas, se por um lado é possível identificar
semelhanças no conjunto hospitalar do sanatório
Vicentina Aranha, por outro, sobressaem as particularidades
de um hospital para o tratamento da tuberculose pulmonar,
o que sublinha ainda mais sua importância no
conjunto da obra do Escritório F.P. Ramos de Azevedo & Cia
diante dos demais conjuntos hospitalares.
Há semelhanças na distribuição
dos serviços em pavilhões isolados, interligados
por meio de galerias cobertas, a casa do diretor, construída
nas proximidades, permitindo uma inspeção zelosa
e imediata, pavilhões colocados simetricamente em
torno de uma vasta praça, com os destinados aos homens, à direita,
e os das mulheres à esquerda. Pode-se ver semelhança
ainda, na escala (três pavimentos) dos edifícios,
no monobloco vertical, uma grande sala de refeições,
copa, banheiros e lavatórios contíguos às
peças de dormir ou enfermaria, lavanderia
com estufas para secagem, galeria coberta, de uso exclusivo
dos doentes, guarnecendo a face do edifício voltada
para o seu respectivo pátio, oferecendo a eles
abrigo durante as horas de recreação repouso
e passeio. A cozinha ocupa a parte central do conjunto para
prover, satisfatoriamente as necessidades de todos os pavilhões.
O Vicentina Aranha é um sanatório
constituído por mais de um edifício, o que
faz dele um hospital do tipo pavilhonar, formando um conjunto
arquitetônico, ou seja, cada edificação
justifica-se simultaneamente, como abrigo para uma atividade
específica, mas integrando um sistema que a envolve.
Possui pavilhões que se configuram às edificações
principais, complementados por edificações
de apoio, anexos a capela. Estão distribuídos
em um terreno que, em 1929, ocupava uma área de 488.000
m². Seus limites iniciavam-se na Rua Engenheiro
Prudente Meireles de Moraes, a parte frontal até hoje,
descendo as laterais pelas avenidas São João
e Nove de Julho até atingir as margens do Ribeirão
Vidoca onde estão agora os bairros Jardim Apollo e
Vila Ema.
Dimensões
e técnicas construtivas
Parte
significativa da área ocupada originalmente foi loteada
para fins habitacionais na década de 70, dando origem
a bairros residenciais. Atualmente, a área do antigo
Sanatório Vicentina Aranha é de 84.500 m².
Nesta área estão distribuídos
os 15 módulos (edificações) existentes
sendo eles: Pavilhão São João – 998.93
m², Pavilhão São José – 1178.62
m², Pavilhão Central 3775.35 m², Pavilhão
Mariana Crespi – 403.62 m², Refeitório
1056.53 m², Pavilhão Alfredo Galvão 181.30
m², Pavilhão Paulista 827.58 m², Lavanderia – 520.45
m², Caldeira 376.88 m², Laboratório – 167.80
m², Manutenção 360.52 m², Necrotério
56.44 m², Portaria 105.26 m², Capela 339.71 m²,
Gruta – 34.60 m². E além das edificações
o Sanatório é circundado por um bosque
com área de 43.887,90 m², separados em canteiros
com paisagismo e canteiros com bosque e algumas espécies
raras e centenárias como: Mogno, Peroba Rosa, Jequitibá, Jacarandá da
Bahia, Gonçalo Alves, Pau Mulato, Jatobá, Brauna
Preta, Araribá, Guarantã, Cabreuba Vermelha,
Louro Pardo e outros.
A técnica construtiva utilizada nas edificações
são: para a vedação, alvenaria
de tijolos maciços, com paredes que chegam a
0.30m de espessura, todas embocadas, rebocadas e pintadas,
tendo barra impermeável em tinta a óleo ou
azulejo branco nas áreas úmidas. A cobertura,
feita com telhas do tipo francesa, repousa sobre estrutura
de madeira (tesouras). As galerias, ligando os diferentes
edifícios, não tem vedação lateral
e, na cobertura, em duas águas, usou-se madeira aparelhada
para dispensar forros e demais revestimentos. Os forros são
executados, geralmente, com estuque de gesso francês,
sendo que o encontro com as paredes é arredondado
por razões assépticas.
Uma das particularidades de um hospital para
a cura da tuberculose pulmonar é a ventilação
e a insolação nas edificações, visto
que, ambos os fatores são considerados de propriedades
terapêuticas. No caso do sanatório Vicentina
Aranha, há áreas livres entre os edifícios
que, geralmente, resguardam a distância de 50m, para
garantir ventilação e insolação
ideais.
Perfil arquitetônico
Dentre
as características arquitetônicas principais
podemos citar o telhado dos pavilhões pequenos que
apresentam uma espécie de lanternim que possibilita
a entrada de luz, a edificação dos prédios
a aproximadamente 0.50m do solo constituindo uma espécie
de barra impermeável para o pavimento térreo
formando assim os porões para ventilação
providos de abertura com grades de ferro, o piso do quartos,
enfermarias, biblioteca e administração em
madeira (tábua corrida), o ladrilho hidráulico
na cozinha, banheiros, refeitório, área
de circulação, galerias de cura e todo setor
médico. Encontra-se bem à frente do hall do
Pavilhão Central uma marquise em estrutura de ferro
fundido, no estilo Art-Nouveau, de procedência não
determinada, com cobertura em vidro na época, segundo
depoimentos, compondo o alpendre da entrada, construído
para o abrigo dos doentes que chegavam ao sanatório
em dias de chuva, as janelas com vergas em arco abatido,
ao centro do Pavilhão Central, alternam-se as janelas
com ângulos retos que compõem todo o resto da
fachada.
O Sanatório Vicentina Aranha encerrou
suas atividades, para tratamento dos doentes de tuberculose,
na década de 60. Os últimos pacientes de tuberculose
pulmonar deixaram o sanatório, juntamente com os pacientes
geriátricos, em outubro de 1981, quando parte das
instalações foi cedida ao antigo Instituto
Nacional de Assistência Médica da Previdência
Social (INAMPS), que ali funcionou até abril
de 1990. Neste mesmo ano iniciaram reforma em alguns setores
para, a partir de então, manter atividades médicas
voltadas para o tratamento de doentes crônicos e idosos – Hospital
Geriátrico, além de sediar a Associação
de Apoio ao Fissurado Lábio Palatal (AAFLAP) que ocupa
o Pavilhão Pequeno para Mulheres.
Este conjunto arquitetônico é amplamente
reconhecido pela comunidade como um dos mais importantes
da fase sanatorial. Em termos arquitetônicos é uma
referência das primeiras manifestações
da modernidade no Vale do Paraíba, sendo protegido
como patrimônio histórico estadual pelo Conselho
de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico,
Artístico e Turístico - CONDEPHAAT.
Fonte: Site do Comphac - http://www.fccr.org.br/comphac/vicentina.htm